Há uma nova forma de miséria respeitável: A preguiça adulta.
Não a preguiça romântica, o ócio fértil nem a contemplação. Falo da preguiça logística. Daquela que começa no sofá e acaba como argumento filosófico.
Esta preguiça já não é apenas privada. Produz discurso. E quando produz discurso, pede exemplo. Este vídeo é um deles.
Partilho-o porque condensa, em poucos segundos, uma miséria muito bem distribuída. Há hoje uma crença estranha de que tudo o que é sincero merece ser dito. Como se a ausência de pensamento pudesse ser compensada pela franqueza. O vídeo que se segue não é lúcido, nem honesto no sentido nobre. É apenas confortável na sua própria mediocridade.
“Mano, eu já nem tenho paciência para falar.
Não tenho vontade de ter paciência.
Mesmo que ela me diga: ‘vamos tomar café’, eu penso logo:
eu tomo café em casa, de chinelos e de pijama, está-se bem, nem me apetece.
Depois imagina: mesmo que ela me chame para ir à casa dela.
A primeira coisa que eu penso é tipo:
‘foda-se, vou demorar muito tempo, amanhã já não posso ir treinar de manhã,
tenho de ficar lá até às tantas’.”
Não há aqui conflito interior, nem drama, nem ambivalência. Há apenas uma lista de contrariedades ditas com orgulho. O discurso é pobre, mas confiante. Barroco de queixas pequenas. Um tratado de auto-indulgência com a estrutura de um desabafo de ginásio.
A malta dos 20 e dos 30 não está traumatizada. Está comodamente cansada.
Cansada antes de começar. Cansada de antecipar esforço. Cansada de investir energia num mundo onde é tudo optimizado para não exigir deslocação. O mundo que prefere o conforto à curiosidade.
Os dados ajudam a perceber o cenário, mesmo que não o expliquem por inteiro: Menos encontros presenciais, menos copula, mais pessoas sem qualquer contacto sexual durante meses ou anos. Não, porque não queiram prazer. Mas porque o prazer que exige logística perdeu competitividade.
O corpo humano, passou a viver num regime de mínimo esforço energético, como se fosse um sistema mal calibrado a tentar poupar bateria.
Na física, sabemos isto:
Um sistema tende para o estado de menor energia possível.
Na matemática, chamamos-lhe optimização.
Na vida íntima contemporânea, chama-se preguiça com discurso.
O orgasmo a solo encaixa perfeitamente neste modelo.
Não exige deslocação.
Não exige negociação.
Não exige corpo inteiro.
Às vezes, nem exige as duas mãos.
É só puxar o órgão para fora ou os dedos para dentro e abafar a pulsão.
E aqui convém dizer isto sem pudor:
isto não é libertação.
É eficiência.
O que era intimidade consigo próprio transformou-se num ato de egoísmo funcional.
Não quero ninguém a interromper o meu conforto.
Não quero gerir expectativas.
Não quero falhar.
Não quero ouvir respirações que não controlo.
O orgasmo passou a ser um acto solitário não por falta de desejo, mas por excesso de cálculo.
E sim, precisamos de dopamina. Precisamos como precisamos de glicose ou de oxigénio. Mas ninguém constrói uma vida inteira à base de açúcar simples sem pagar um preço metabólico.
O problema não é a dopamina. É o monocultivo.
Sexo gregário, sexo a dois, sexo com fricção humana, não é uma performance dopaminérgica optimizada. É um sistema instável. Com ruído. Com falhas. Com variáveis imprevisíveis. É, portanto, menos eficiente e mais caro.
Mas também é mais humano.
A solidão de um orgasmo não está no acto. Está no saldo.
No balanço final entre esforço e significado.
E o saldo da preguiça é este:
Menos encontros, menos colisões, menos histórias, menos atrito.
Mais controlo.
Mais conforto.
Mais isolamento bem justificado.
Socializar tornou-se um acto de profunda coragem.
Talvez o problema não seja o sexo.
Nem a idade.
Nem a tecnologia.
Talvez seja a recusa quase científica de aceitar a gravidade.
Sem gravidade, não há queda.
Sem queda, não há encontro.
Sem encontro, sobra isto: corpos competentes, orgasmos eficientes e vidas estranhamente leves.
Leves demais para tocar alguém.
Isabel Saldanha
Notas de rodapé
1. A chamada preguiça logística aparece recorrentemente em estudos qualitativos sobre dating contemporâneo, onde o esforço associado ao encontro presencial (tempo, deslocação, gestão emocional) surge como factor dissuasor, sobretudo em adultos jovens urbanos.
2. Dados do General Social Survey (EUA) mostram que a percentagem de adultos jovens sem qualquer actividade sexual no último ano aumentou significativamente desde os anos 2000, com especial incidência nos 18–30.
3. Princípio do mínimo de energia: em física, sistemas tendem para estados de menor energia potencial. A analogia aqui é abusiva, mas tentadora.
4. Em neurociência, exposição repetida a estímulos altamente recompensadores pode levar à diminuição da sensibilidade ao estímulo e à necessidade de doses maiores para obter resposta semelhante. Aplicar isto à vida íntima é perigoso e precisamente por isso altamente interessante.
5. Relações humanas são sistemas não-lineares: pequenas variações produzem grandes efeitos. Óptimo para histórias, péssimo para controlo.
6. Estudos recentes sobre solidão (ex.: relatórios de saúde pública nos EUA e Europa) indicam aumento consistente da percepção de isolamento social, mesmo entre pessoas com contacto digital frequente.


Artigo importante.
A dessensibilização à interação social foi acontecendo gradualmente. Os jovens que têm hoje 30 anos cresceram com um pé na era maioritariamente analógica e outro na digital, com a fase adulta já profundamente pautada pela interação através das redes sociais, que exige esforço mínimo e recompensa generosa (é fácil saber se somos atraentes para aquela pessoa, basta um gosto ou uma reação a uma foto) - e o incrível é que isso vai bastando. O processo de conhecer e conquistar alguém, como descreves bem, exige um tipo de frustração da qual cada vez nos distanciamos mais. Sofrer por amor, esperar, não ser correspondido ou a dúvida perante todos os meandros das relações é um processo demasiado desconfortável para uma cultura que vive obececada com a felicidade própria.
Sair de casa e expôr-se às relações de carne e osso é hoje em dia um ato muito mais invulgar e até a passar de moda.
Muito bom, faz a gente pensar. O que ele tava falando no video é uma justificativa pra um comportamento que lá no fundo é medo também, uma série de questões, no íntimo é certo que ele quer alguém, mas nao quer passar pela logística de ter, nao aguenta o caminho antes da recompensa, muito pelo sistema de recompensa rapida que cada vez mais temos, quem consegue sair disso parece que vive melhor, mas é o caminho que a sociedade toma. o animal nasceu sempre querendo economizar energia, no inconsciente nós devemos ser assim também, nós que racionalizamos trabalhar para produzir e ter mais conforto e tudo, tudo racionalmente, mas o íntimo talvez só queira ser cada vez mais preguiçoso, mas pagando preço por vários lados também. nunca tem como saber o que vem por aí kkkk, só vem