Há viagens que começam no aeroporto.
Outras começam muito antes. Começam numa mensagem trocada à pressa, numa mala aberta no chão, numa filha que chega de outro país, noutra que vem de outra casa, numa mãe que finge que está só a organizar documentos, voos, reservas, carros, ferries e horários, quando, na verdade, está a tentar organizar e apaziguar o coração.
Fui a Itália há poucas semanas.
Roma, Nápoles, Pompeia, Ravello, Matera, Locorotondo. Dias de estrada, calor, vinho branco, pizzas improváveis, igrejas em excesso, cidades que se escavam por dentro e lugares que nos obrigam a andar mais devagar. Itália foi uma daquelas viagens em que o corpo se cansa, mas a cabeça ganha espaço. Um país inteiro a dizer-nos que nada se constrói sem ruína, sem camadas e sem tempo.
Voltei com a mala cheia de fotografias, histórias, nomes de vinhos, nódoas de molho de tomate e uma sensação estranha de que tinha ido ver cidades antigas para perceber melhor a minha própria vida.
Pouco tempo depois, vim para a Croácia.
Desta vez, não vim sozinha. E isso muda tudo.
A Croácia apareceu no mapa como destino, mas o verdadeiro destino era outro. Era voltar a estar com as minhas filhas juntas. As duas. No mesmo carro, na mesma casa, na mesma mesa, na mesma praia, no mesmo disparate, no mesmo silêncio.
Quem tem filhos pequenos acha que a infância é exigente. E é. Há noites sem dormir, birras, lancheiras, febres, horários, mochilas, trabalhos de casa, banhos, meias desaparecidas e uma quantidade absurda de coisas que ninguém nos avisou que iríamos repetir todos os dias.
Mas há uma fase sobre a qual quase ninguém nos fala.
A fase em que os filhos crescem e deixam de caber na nossa rotina.
Não deixam de caber no amor. Isso nunca acontece. Mas deixam de caber no calendário, nos hábitos, na casa, na mesa posta sem pensar. Começam a ter vidas próprias, cidades próprias, amigos próprios, amores só seus, horários próprios, dores próprias. Começam a ser pessoas inteiras, com mundos que não passam sempre por nós.
E nós, mães, ficamos ali, com um amor imenso nas mãos e menos sítios onde o pousar.
Há três anos, a Caetana foi estudar para Amesterdão. Há três anos, a Camila foi viver mais tempo com o pai. Há três anos, a minha casa deixou de ter o mesmo barulho, o mesmo trânsito, a mesma confusão. Há três anos, eu comecei também outra vida, mesmo sem saber muito bem como se faz isso quando a vida anterior ainda anda pela casa toda.
Durante muito tempo, achei que o desafio era habituar-me à ausência.
Hoje acho que o desafio é outro. É aprender a não transformar a ausência numa ferida sempre aberta. É deixá-la existir sem a encher de drama. É não fazer dos filhos a prova permanente do nosso valor. É amá-los sem os puxar de volta para o lugar onde eram pequenos.
Isto é difícil de escrever sem parecer bonito demais. Porque, na prática, não é bonito. É desajeitado.
É uma chamada que não vem quando queríamos. É uma resposta seca no WhatsApp. É uma fotografia que vemos no Instagram e percebemos que há uma vida inteira a acontecer longe de nós. É uma filha que já sabe resolver coisas sem perguntar. É outra que ainda pergunta, mas já não da mesma maneira. É ficarmos felizes e tristes ao mesmo tempo, que é uma das especialidades mais cruéis da maternidade.
Depois, de repente, estamos as três juntas.
E não acontece nada de cinematográfico.
Ninguém corre em câmara lenta no aeroporto. Ninguém diz a frase perfeita. Ninguém toca violinos. Há malas perdidas, fome, calor, discussões sobre quem fica com que cama, adolescentes a revirar os olhos, adultos cansados, pesquisas no Google Maps, vinhos que afinal têm gás, supermercados onde ninguém sabe onde está o leite de trigo e uma mãe a tentar disfarçar que está comovida por coisas ridículas.
Por exemplo, vê-las sentadas uma ao lado da outra.
Ou ouvi-las rir.
Ou perceber que continuam a ter códigos entre elas que não passam por mim.
Ou vê-las implicar uma com a outra e pensar, com uma ternura absolutamente parva, que até aquilo me fez falta.
A maternidade, nesta fase, é muito isto: aprender a receber o que vem, sem exigir que venha com a forma antiga.
Elas já não são as meninas que eu levava pela mão. Já não sou a mãe que sabia tudo, decidia tudo, prevenia tudo. Ainda quero protegê-las, claro. Ainda quero que ponham protector solar, que bebam água, que não se metam em carros estranhos, que não confundam liberdade com abandono de si mesmas. Mas já não mando no mundo delas. E ainda bem. Também foi para isto que as criei.
O problema é que ninguém nos prepara para o sucesso da nossa própria educação.
Criamos filhos para serem autónomos e depois ficamos meio ofendidas quando eles o são. Ensinamo-los a voar e depois estranhamos o céu vazio. Passamos anos a dizer “vai, experimenta, descobre, escolhe” e, quando eles vão mesmo, ficamos à porta com o coração em modo cão abandonado.
Eu sei que isto não é nobre. Mas é humano.
Em Itália, olhei muitas vezes para cidades construídas sobre cidades. Roma em cima de Roma. Matera cavada na pedra. Pompeia soterrada e devolvida ao mundo séculos depois. Tudo ali parecia dizer que nada desaparece completamente. As coisas mudam de forma. Ficam por baixo. Reaparecem. Sustentam outras.
Na Croácia, percebo isso de outra maneira.
A mãe que fui continua cá. A casa cheia continua cá. As miúdas pequenas continuam cá. Não como antes, não à vista, não disponíveis para eu as ir buscar sempre que tenho saudades. Mas estão cá. Em camadas. Numa gargalhada. Numa expressão. Numa maneira de uma delas dizer “mãe”. No modo como a outra se encosta sem reparar. Numa fotografia em que já parecem mulheres, mas eu ainda vejo as bochechas de bebé.
As viagens têm este poder estranho. Achamos que vamos conhecer um país e, pelo caminho, tropeçamos em nós.
Fui a Itália e trouxe ruínas. Vim para a Croácia e encontrei uma espécie de paz. Não aquela paz de postal, com mar azul e vestidos de linho. Uma paz mais imperfeita. Mais suada. Mais real. A paz de perceber que a vida não voltou ao que era, mas também não acabou quando deixou de ser.
Durante muito tempo, acho que confundi amor com presença permanente. Como se amar fosse estar sempre. Como se ser mãe fosse ocupar todos os espaços. Como se uma família só existisse quando vive debaixo do mesmo tecto, com horários alinhados e refeições marcadas.
Agora começo a perceber que uma família também pode ser isto.
Um reencontro entre viagens.
Uma mesa improvisada.
Um carro cheio de sacos.
Uma ilha.
Uma mãe a tentar não controlar tudo.
Duas filhas a crescerem para longe e, ainda assim, a voltarem.
Não voltam para ser pequenas. Não voltam para caber na versão antiga de nós. Voltam como são agora. Com as suas vidas, as suas impaciências, as suas piadas, os seus telemóveis, as suas ideias, os seus silêncios.
E eu também já não sou a mesma mãe.
Sou mais livre, mais cansada, mais inteira em alguns sítios, mais partida noutros. Tenho menos certezas e menos paciência para fingir que está tudo sob controlo. Já não quero fazer tudo numa viagem. Já não quero ver todos os monumentos, cumprir todos os roteiros, provar todos os restaurantes, fotografar todos os ângulos.
Quero estar.
Parece pouco, mas para mim é novo.
Estar sem antecipar a perda. Estar sem fazer inventário ao tempo. Estar sem transformar cada momento numa despedida antecipada. Estar sem pedir à vida que volte atrás só porque houve uma versão dela que me fez muito feliz.
As minhas filhas estão crescidas.
Escrevo isto e ainda me custa.
Mas também me orgulha.
Estão crescidas e estão aqui. Por uns dias, estamos as três no mesmo lugar do mundo. Isso não resolve nada e, ao mesmo tempo, repara qualquer coisa.
A Croácia foi o pretexto.
A viagem maior não aparece no mapa.
Isabel Saldanha


A vida é uma viagem maravilhosa com obstáculos e desafios.
Que texto maravilhoso sobre essa fase da maternidade. Os meus ainda são pequenos (13 e 5), e queixo-me tantas vezes das birras, das discussões, das noites em que o pequeno ainda acorda para o irmos tapar e de ser mãe-uber. Estou cansada, mas ao mesmo tempo tenho noção que o tempo passa depressa demais e que "amanhã" vou ter tantas saudades. Já a sigo desde que as suas filhas são pequeninas (lembro-me tão bem da vossa viagem a São Tomé!) e sempre me inspirou o desapego amoroso e a facilidade e descontracção com que os vossos pés ficavam tão pretos:) E posso partilhar que sempre fiz viagens com a minha mãe, era o nosso momento! E é tão importante. Sem maridos, sem filhos, sem namorados. Um beijinho