António
Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais.
António,
“Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais”. Esta frase sua ficou-me atravessada como ficam as coisas verdadeiras: sem pressa de explicar, mas com a insistência de quem sabe que um dia havemos de chegar lá. Entrou na minha vida devagar, primeiro com Memória de Elefante, depois com Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, e eu percebi cedo que havia escritores que se liam e outros que se atravessavam. O António atravessava. Havia qualquer coisa naquela voz, naquela forma de falar do mundo como se tivesse uma ferida aberta no lugar da voz, que nos obrigava a ficar. Durante um tempo foi presença obrigatória à nossa mesa. Eu levava-o comigo como quem leva um convidado essencial para uma conversa longa. Havia noites em que abríamos um livro seu e ficávamos ali suspensos entre a literatura e a vida, como se uma coisa explicasse a outra. Lembro-me de um texto seu sobre a sua mãe, já depois de ela não estar. Lembro-me de estar sentada a ler em voz alta e de chorar sem vergonha nenhuma daquele silêncio cheio de lágrimas, porque de repente percebia que aquilo não era apenas um livro: era uma tradução.
Vieram depois Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas, Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal, Exortação aos Crocodilos, Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, Eu Hei-de Amar uma Pedra, Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, e cada um deles acrescentou qualquer coisa ao inventário do que é estar vivo.
Consigo aprendi que a literatura não serve para enfeitar a vida, serve para a suportar. Serve para dizer o que custa dizer. Serve para olhar para o lado mais desarrumado da alma.
Hoje percebo melhor essa frase sua. Talvez crescer seja isto: chegar finalmente ao lugar para onde os livros nos empurram desde o início. E perceber que os escritores que nos ensinaram a ver estavam, na verdade, a preparar-nos para a vida que ainda não sabíamos viver. Por isso obrigado.
Por ter sido, sem saber, presença numa das mesas boas da minha vida. Porque há escritores que se leem.
E há escritores que ficam sentados connosco para sempre.
Isabel Saldanha
Nota: Partilho com vocês duas das crónicas que mais gosto.
CRÓNICAS
MÃE
Mãe, sabe, vou dizer-lhe uma coisa, tenho muitas saudades suas, palavra, eu que, na sua opinião, fui o mais difícil dos seus filhos e comecei cedo porque ao nascer quase a ia matando. Quase a ia matando a si e a mim dado que na aflição de a salvarem me esqueceram a um canto, afogado em secreções. Depois, com sete ou oito meses, encontraram-me em coma com a meningite, depois aos dois ou três anos uma tuberculose pulmonar de que me lembro tão bem, do mal estar horrível da febre, de semanas e semanas fechado num quarto, a olhar-me no espelho do armário numa esperança de companhia. Recordo-me do meu avô me trazer presentes à cama e de eu atirar tudo ao chão, furioso, porque não eram presentes que eu queria, conforme vomitava a comida que me davam porque não era comida que me apetecia. Pensando nisso agora afigura-se-me tão óbvio o que eu necessitava. Pouco depois
(é assim que me parece)
ensinaram-me a ler e comecei a melhorar porque lia e gostava de resolver puzzles e problemas de cubos, porque ansiava entender tudo. Isso acho que a mãe compreendia confusamente e a minha pobre precocidade assustava-a, apavorada que os meus irmãos, que iam nascendo, fossem burros. Não eram, claro, a única diferença estava em que não tinham passado pelos tormentos físicos que passei tão cedo, sobretudo a solidão horrível da doença, que continua a esporear-me a alma, que continuará para sempre a doer-me. Daí para a frente
(nunca lhe disse isto, mãe)
a minha vida foi-se tornando, cada vez mais, uma empresa de demolições e reconstruções, mais a horrível chatice da escola, que não me interessava um pito, a tentar defender-me lendo Júlio Verne durante as aulas, às escondidas, até a régua ou o ponteiro do professor me apanharem a moleirinha. Mas gostava de Júlio Verne sobretudo por dois conselhos aparentemente extra-literários e, na realidade, tão importantes: o primeiro era sentar o rabo em cima da página acabada a fim de aquecer a prosa; o segundo deixar o trabalho num parêntesis aberto na ideia de o arejar. Para além de outras razões fundamentais, por exemplo a necessidade, para um escritor, de receber o que ele chamava Lições de Abismo. Júlio Verne é um autor muito mais relevante do que as pessoas julgam. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um final de capítulo em que dialogam a avó e o neto. Mais ou menos assim, porque estou a citar de memória:
“ – E esse senhor é louco?
perguntou a minha avó. Fiz que sim com a cabeça. A minha avó continuou – E quer levar-te com ele? mesmo sinal.
– Para onde? perguntou, e eu indiquei com o dedo o centro da Terra.”
E razão tem o meu estimado Alberto Manguel em organizar todos os anos um Congresso Júlio Verne na cidade natal do escritor. Nantes. Mas adiante, mãe. Eu apenas queria ir ao centro da Terra no foguetão de um livro escrito por mim porque sabia qual parte do centro da Terra eu desejava, e portanto que se lixasse o resto: só me interessava essa viagem, ainda hoje só me interessa essa viagem, e sacrifiquei praticamente tudo o mais para sempre. Quer dizer: não sacrifiquei nada, era apenas o que eu pretendia da vida. Os nossos mal entendidos residiam nisso: eu só me preocupava com o centro da Terra e a minha Mãe queria que eu fosse uma pessoa responsável e séria. Compreendo-a muito bem: no seu lugar faria os impossíveis para impedir um filho meu de se tornar uma espécie de Ícaro a tombar, de asas desfeitas, no negrume do desconhecido. Essa foi a grande querela, mais ou menos oblíqua, mais ou menos silenciosa, da nossa relação. Acabou por aceitar, mas ficou lá em cima a espreitar-me, preocupadíssima com aquele voo que ela achava terrível e eu a única coisa por quem daria a vida. Até ao fim a minha estranha existência preocupava-a e intrigava-a mas lá acabou por aceitá-la numa resignação inquieta
(parece um paradoxo mas não é)
e assustou-a sempre
(ela que quase nada assustava)
o pânico de um falhanço irremediável
(entre parêntesis tenho muitas saudades suas.) Agora, que já não está perto de mim
(se calhar está, se calhar há-de arranjar sempre maneiras de estar)
e eu me acho quase a acabar a tal viagem, o que mais desejaria era perguntar-lhe
– Vê que cheguei, mãe, vê que cheguei?
e acenarmos de longe um ao outro, felizes por afinal estarmos muito mais perto. E então podia, com a idade que tenho, sentar-me ao seu colo, perguntar
– Não tem por aí um beijo a mais de que não precise para eu pôr nesta bochecha?
e voltar a sentir a sua boca, que a mãe às vezes me dizia doer-lhe por causa das dúzias de beijos que, em pequenino, me dava.
António Lobo Antunes
AS PESSOAS CRESCIDAS
As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu gatinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos.
Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinham o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir ao almoço, com uma escovinha especial. Aconteceu-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas de dentes num estojo de gengivas cor-de-rosa escondidas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a troçarem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas.
Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia neles era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes do mundo: os bichos da seda e os guarda-chuvas de chocolate. Também não gostavam de coleccionar gafanhotos, de mastigar estearina nem de dar tesouradas no cabelo, mas em contrapartida possuíam a mania incompreensível dos banhos e das pastas dentífricas e quando se referiam diante de mim a uma parente loira, muito simpática, muito pintada, muito bem cheirosa e mais bonita que eles todos, desatavam a falar francês olhando-me de banda com desconfiança e apreensão.
Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em português, como a desavergonhada da Luísa. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaros. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido.
Claro que acabei o liceu, andei na faculdade, tratam-me por senhor doutor e há séculos que ninguém se lembra de me mandar lavar os dentes. Devo ter crescido, julgo eu, porque a parente loira deixou de me sentar ao colo e de me fazer festas no cabelo provocando em mim uma comichão no nariz que me tornava lânguido e que aprendi mais tarde ser o equivalente do que chamam prazer. O prazer deles, claro, muito menor que ode mastigar estearina ou aplicar tesouradas na franja. Ou rasgar papel pela linha picotada. Ou mostrar um sapo à cozinheira e vê-la tombar de costas, de olhos revirados, derrubando as latas que anunciam Feijão, Grão e Arroz e que na realidade contêm massa, açúcar e café.
Devo ter crescido. Se calhar cresci. Mas o que de facto me apetece é convidar a parente loira para jantar comigo no Gambrinus. Peço ao criado que nos traga duas doses de guarda-chuvas de chocolate e enquanto chupamos a bengalinha de plástico mostro-lhe a minha colecção de gafanhotos numa caixa de cartão. Posso estar enganado mas pela maneira como me fazia festas no cabelo, com olhos tão jovens como os meus, quase que aposto que ela há-de gostar.
António Lobo Antunes

