Fazia-te
Um ligeiro incómodo.
Há palavras que não são inocentes. Não pelo seu significado original, mas pelo desvio que sofreram no uso comum. E é aí que começa o meu incómodo.
Sendo uma pessoa liberal e de cabeça aberta, há expressões coloquiais que me desorganizam. Coloquial, sim, é aquilo que pertence à fala corrente. Mas nem tudo o que é corrente é aceitável. E eu esforço-me por não cancelar pessoas por palavras, porque acredito profundamente que ninguém se esgota numa expressão infeliz. Ainda assim, há duas que me deixam quase de luto.
A primeira é “mamar”.
Não gosto. E não encontro um contexto em que passe a gostar. “Mamar na boca”, usado como alegoria de beijo, cria em mim uma rejeição imediata. O verbo “mamar” pertence a um território muito específico: a amamentação. É um gesto de nutrição, de dependência primária, de vínculo entre mãe e cria. Retirá-lo desse lugar e colocá-lo no campo do erotismo ou do afecto adulto distorce o acto que pretende descrever.
O beijo, para mim, é talvez um dos gestos mais bonitos da experiência humana. Suspende, aproxima, revela. Não é ingestão, não é consumo, não é necessidade fisiológica. Quando lhe chamam “mamar”, reduzem-no a uma lógica de uso, quase animal, quase mecânica. E isso tira-lhe dignidade. Não é pudor, é recusa de empobrecimento.
A segunda palavra é “fazia”.
E aqui o desconforto é ainda mais profundo. “Fazer alguém”, sobretudo em contexto sexual, implica operar sobre o outro. Há uma ideia de manuseio, de intervenção, de execução. O outro deixa de ser sujeito e passa a ser objecto de uma acção.
O que me incomoda não é o desejo implícito. É a forma como ele é formulado. “Fazia” não sugere encontro, sugere uso. Não sugere reciprocidade, sugere domínio.
É uma linguagem que reduz a complexidade de uma relação a um gesto unilateral e quase utilitário.
E isto não se resolve com a inversão de papéis. Não acho mais aceitável quando são mulheres a dizê-lo sobre homens. Continuo a achar pobre. Continuo a achar redutor. Continuo a sentir uma espécie de vergonha alheia quando vejo isso escrito ou dito em espaços públicos.
Porque, no fundo, acredito que a linguagem revela a forma como vemos o outro.
E há palavras que traem uma visão demasiado simplificada, demasiado funcional, demasiado distante daquilo que eu reconheço como encontro entre duas pessoas.
Não me torna menos liberal dizer isto.
Torna-me, talvez, mais exigente com a forma como escolho nomear o mundo.
E há palavras que eu simplesmente não uso. E não uso porque não quero viver dentro daquilo que elas insinuam.
Façamos. Fazendo-nos.
Sem fazer dos outros o que não permitiríamos que fizessem de nós.
Isabel Saldanha
Nota: E Vocês? Partilhem comigo as vossas palavras impronunciáveis. Estou curiosa.


