Seringas & Açúcar
O Corpo que Sonhamos
Há qualquer coisa de profundamente curioso no pânico moral que estas novas injecções de emagrecimento provocam. Como se estivéssemos perante o colapso ético da civilização ocidental e não apenas perante pessoas cansadas de viver dentro de um corpo onde não se sentem bem.
Durante décadas, normalizámos açúcar em tudo. Pequenos-almoços que parecem sobremesas. Refrigerantes gigantes. Comida ultraprocessada desenhada laboratorialmente para nos viciar. Crianças a crescer com picos glicémicos permanentes e adultos exaustos, inflamados, ansiosos e metabolicamente destruídos antes dos cinquenta. Chegámos tarde ao grande problema: a relação profundamente doente que criámos com a comida, a dopamina e o consumo.
E deus sabe o quanto me pelo por enchidos.
E agora, de repente, indignamo-nos com uma injecção.
Sim, o Ozempic foi inicialmente desenvolvido para diabetes tipo 2 e houve um uso massivo e descontrolado fora desse contexto. Entretanto, a indústria farmacêutica percebeu rapidamente o mercado gigantesco que tinha pela frente e surgiram medicamentos especificamente direccionados para perda de peso, como o Mounjaro, o Wegovy ou o Zepbound. Não são comparticipados na maioria dos casos, custam centenas de euros por mês e há pessoas a gastar fortunas para perder peso. Diz-se que os portugueses já gastam centenas de milhares de euros por dia nestes tratamentos.
Mas talvez a pergunta mais honesta seja: porquê tanto escândalo?
A obesidade não é preguiça moral. Não é falta de carácter. É uma doença multifactorial, hormonal, psicológica, social e económica. E a insegurança física também tem consequências reais. A ansiedade, a vergonha, o isolamento, a perda de confiança, o afastamento social, tudo isso adoece pessoas.
O corpo não é apenas estética. É também dignidade, mobilidade, desejo, presença e identidade.
E não há mal nenhum em querer aproximarmo-nos daquilo que sonhamos ser.
Há uma frase belíssima de um filme do All About My Mother, em que uma travesti em palco diz para a audiência que ria: “Uma pessoa é tão mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que sonha ser.”
E talvez seja isso que incomode tanta gente. O desconforto não está apenas na injecção. Está na ideia de alguém decidir transformar-se.
Claro que há excessos. Claro que existe distorção corporal. Claro que há anorexia, obsessão e uma indústria estética cruel. Mas as coisas não precisam de ser mutuamente exclusivas. Uma pessoa pode fazer exercício, aprender a comer melhor, cuidar da saúde mental e, ao mesmo tempo, recorrer a ajuda farmacológica. Tal como alguém toma antidepressivos enquanto faz terapia. Tal como eu e tantos outros, usaram e usam, aparelho nos dentes sem que isso signifique falta de aceitação pessoal.
Aceitação não é resignação.
E inspiração não é ódio ao próprio corpo.
Há pessoas que genuinamente recuperam saúde, energia, auto-estima e vontade de viver quando conseguem perder peso.
E fingir que isso não existe só porque nos incomoda discutir estética de forma frontal também é uma forma de hipocrisia moderna. Sobretudo numa sociedade obcecada com imagem, juventude e validação permanente.
Desde que haja acompanhamento médico, bom senso e consciência dos riscos, não vejo superioridade moral nenhuma em sofrer sem ajuda só para parecer mais “natural”.
Nem acho particularmente nobre transformar a dor física e emocional numa espécie de prova de virtude.
Há coisas bastante mais indignas do que alguém querer sentir-se melhor dentro da própria pele.
Sem retirar uma grama,
Isabel Saldanha



