Not An Addict
It's not a habit, it's cool, I feel alive
Tenho 54 textos em rascunho aqui e já publiquei 101 até agora.
Sempre que tenho um disparo emocional ou há uma notícia que me faz pensar, um comentário de um aluno, uma frase que oiço num curso que estou a dar, um livro que estou a ler, uma enxurrada estriónica de comentários no Instagram a propósito de uma notícia qualquer, lá venho eu aqui abrir uma janela no Substack e começo logo a escrever. Depois, por qualquer razão, não concluo o texto e quando o volto a ler, o assunto já não me toca, a emoção já não me habita e pergunto-me o que me terá passado pelo estreito emocional para querer despejar tanta mercadoria naquele porto.
Se os textos me soam excessivamente intimistas, pseudo-românticos, confessionais ou com toque de perdidos e achados, vão para um lugar de vergonha e memória, como se fossem duas crianças de castigo, apanhadas a fazer disparates.
Outras vezes, sinto o texto sem vincos e sem vínculo, tão hermético e direito que o facto de estar bem escrito ainda o torna mais frio, acrobático e distante. Estes também arquivo nos rascunhos, quando não sou movida pela vaidade intelectual de os ver brilhar e publico.
Às vezes, por curiosidade, releio-os, para alimentar a crença de que sei ordenar as palavras e escrever coisas bonitas, que sou um ser pensante, preocupado em ocupar espaço com pertinência. Mas uns dias depois até aquilo é ruído.
E fico sem saber o que me move a linha editorial.
Perguntam-me se escrevo mais quando estou triste. Mas não consigo relacionar directamente a veia criativa com um dreno de sangue. Sei que na periferia de um desgosto de amor se produzem textos com muita carne. Que o tema não se esgota, nem se escoa por mais orifícios que lhe sejam ofertados. Que o sangue em despeito vai da cabeça ao peito e que, uma vez vomitado, se pode engolir tudo outra vez. Mas depois de ter passado mais de dois anos em tentativas de reconciliação, o amor romântico perdeu terreno para o amor social. Sim, não escrevi amor próprio de propósito, ainda que reconheça nos atributos do isolamento voluntário e do autocuidado todo o combustível necessário à melhor jornada da sombra.
Mas não quero derivar este texto para um script de reels com música sonora profunda e frases de remate. O Alan Watts faz isso com uma voz tão límpida e com um discurso tão melhor que o meu.
O que eu sei é que já não quero ir ao baú dos cardíacos para alimentar de tinta a minha pena sensorial. Tenho palavras que cheguem para semear ideias em terras menos revolvidas. O amor esgota-nos. O amor dos outros alimenta sempre.
Já cá fora. Uma vez vencido o conforto da escuridão, mesmo atravessando dias de frio e nevoeiro, há uma percepção de sol que se instala. E essa luz traz uma caneta que escreve de um lugar de clareza e digestão. Tinha saudades de dar palco a essa voz punk que estava com as raízes atrofiadas de tanto escrever refrões de amor.
All this talk of getting old
It's getting me down, my love
Like a cat in a bag, waiting to drown
This time I'm coming down
The Drugs Don’t Work | Song by The Verve ‧ 1997
Por isso, entre estados letárgicos que não cultivo e a tristeza que nos visita a todos, oscilo normalmente entre uma alegria pouco modesta e uma energia bastante positiva. Prometizei o meu ADN que esse seria o meu estado-mãe, para que reconheça na desesperança um invasor. Porque, regressando à senda da inspiração, quando me vou muito abaixo entro num picadeiro. Só consigo vazar umas frases toscas que valem como unidade de desabafo, mas não fazem estaleiro de um poema.
Preciso que a vida me corra bem para escrever bem. E se já escrevo menos sobre o Amor, não é porque esteja mais fria, mas porque já o mastiguei até à náusea. Prefiro escrever a partir de um lugar onde a vida funciona. A literatura não tem de sangrar para ser verdadeira.
Breathe it in and breathe it out
And pass it on, it’s almost out
We’re so creative, so much more
We’re high above but on the floor
It’s not a habit, it’s cool, I feel alive
If you don’t have it you’re on the other side
I’m not an addict, maybe that’s a lie
I’m not an addict...
That’s a lie...
Not An Addict | K´s Choice
Este texto não foi parar aos rascunhos porque já não nasceu a pedir colo.
Não veio exigir catarse, nem redenção, nem aplauso pela ferida exposta. Veio depois. Depois do sangue arrumado, da história revista, do corpo já não estar em sobressalto. As músicas que aqui entram não são banda sonora da queda, são som ambiente da ressaca. Oiçam-nas e quanto lêem (se conseguirem).
The Drugs Don’t Work não romantiza o fim, constata-o. Há um momento em que insistir já não dói, só cansa. E quando a escrita deixa de tentar salvar o amor, começa finalmente a dizer alguma coisa que presta sobre a vida.
E também não foi para os rascunhos porque reconheço neste lugar uma lucidez que não é fria, é limpa. Not an Addict não fala de vício para o glorificar, fala para o desmascarar.
Também eu já confundi intensidade com verdade, repetição com profundidade, dor com talento. Todos vimos de lá, sim. Dos rascunhos emocionais, do excesso, do ensaio geral da identidade. Mas ficar lá é outra coisa.
Este texto fica porque não pede desculpa por estar inteiro. Porque não escreve para sobreviver, escreve porque a vida, entretanto, correu suficientemente bem para permitir pensamento. E isso, hoje, é a minha linha editorial.
I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did, I would kneel down and ask him
Not to intervene when it came to you
Will not to touch a hair on your head
Leave you as you are
If he felt he had to direct you
Then direct you into my arms
Into My Arms | Song by Nick Cave and the Bad Seeds
Isabel Saldanha

