Quem diz homens diz mulheres.
Porque o problema nunca foi o género. O desmazelo são as pessoas que saem da nossa vida antes de saírem da nossa cabeça.
Há separações que acontecem num dia. Outras levam anos. O corpo é particularmente lento nestas matérias.
A pessoa já mudou de casa, de rotina, de fotografia de perfil, e nós continuamos a pôr dois pratos na máquina da loiça.
Continuamos a virar-nos para o lado da cama onde já ninguém dorme.
Continuamos a guardar notícias para contar a alguém que já não nos atende o telefone.
O amor tem esta crueldade: raramente abandona a casa ao mesmo tempo que o dono. Fica para trás a arrastar móveis. A abrir gavetas. A fazer barulho nos corredores.
E nós, adultos, independentes, gente que assina contratos e paga impostos somos atirados para os Perdidos e Achados.
Regressamos de repente a uma versão antiga de nós próprios. Aquela que ainda acredita que, se esperar mais um bocadinho, alguém volta para nos buscar. Como uma criança pequena que larga a mão quente dos pais numa feira e, quando volta a olhar, já não os encontra.
As luzes continuam acesas. Os vendedores continuam a gritar. As pessoas continuam a passar. Por momentos, até sentimos um salpico de liberdade. Mas o mundo deixou de ser um lugar seguro para nós. Passa a ser um lugar onde procuramos uma cara conhecida numa multidão indiferente. Onde temos medo. Onde não percebemos exactamente porque é que fomos deixados para trás.
Passamos décadas a construir uma identidade. Uma carreira. Uma reputação. Uma vida.
E depois basta uma única frase.
“Já não te amo.”
Ou uma versão moderna e ligeiramente mais cobarde da mesma frase.
“Preciso de espaço.”
E voltamos imediatamente aos seis anos de idade.
As mensagens que recebo quando escrevo sobre amor partem quase sempre da mesma esperança secreta.
A de que eu saiba alguma coisa que vocês não sabem. A de que exista uma espécie de sabedoria adquirida. Uma vacina emocional. Uma imunidade conquistada à força de repetição. Como se alguém que já tivesse sobrevivido a cinco desgostos amorosos soubesse sofrer melhor do que alguém que está a atravessar o primeiro.
Não sabe. Sofre apenas com mais vocabulário.
Roland Barthes escreveu que quem sofre de amor parece sempre um sobrevivente de uma catástrofe privada. Porque numa catástrofe individual o mundo continua. Os semáforos mudam de cor. Os aviões levantam voo. As pessoas continuam a publicar fotografias do jantar.
Mas para nós, houve um deslocamento de terras. E ninguém parece ter dado por isso.
Viktor Frankl sabia-o melhor do que ninguém. Sobreviveu a Auschwitz para depois concluir que o ser humano consegue suportar quase qualquer sofrimento desde que consiga atribuir-lhe significado.
O problema é que o amor perdido raramente se apresenta legendado. Não explica porque veio. Nem porque partiu. Nem o que devemos fazer com o património das memórias que nos rodeiam.
Não há paliativos para certas dores.
Há apenas um medicamento chamado tempo. E até esse parece estar frequentemente esgotado.
O tempo do amor não respeita relógios. Os ponteiros sabem medir minutos. Mas não sabem medir saudades. Uma fotografia pode anular seis meses de progresso. Uma música pode devolver-nos a uma versão antiga de nós próprios. Um nome dito ao acaso pode devolver-nos a uma terça-feira de Novembro que julgávamos enterrada.
Marguerite Duras escreveu que o amor nunca desaparece completamente. Muda apenas de lugar. Talvez seja verdade. Talvez o amor não desapareça. Talvez se transforme.
Em memória.
Em linguagem.
Em literatura.
Em silêncio.
Em cicatriz.
O verdadeiro conflito nunca foi esquecer alguém. Para mim, o verdadeiro conflito é outro:
Como é que apagamos uma história sem nos apagarmos dela?
Como é que deixamos morrer uma relação sem assassinar tudo o que ela nos ensinou? Como é que abandonamos uma casa sem demolir as fundações?
Porque uma pessoa que amámos durante anos não é apenas uma pessoa.
É uma geografia.
É uma língua.
É uma cronologia inteira.
E quando ela desaparece, não perdemos apenas alguém.
Perdemos uma versão de nós.
Durante muito tempo andei à procura de uma saída. Não encontrei.
Encontrei apenas isto:
Um dia deixamos de contar os dias.
Um dia deixamos de ensaiar conversas imaginárias.
Um dia deixamos de consultar o passado como quem consulta uma certidão.
Um dia percebemos que já não estamos a sobreviver.
Estamos novamente a viver. E sem sabermos exactamente quando aconteceu, voltámos a gostar. Não necessariamente de outra pessoa.
Mas da vida.
Porque a verdade é esta:
As grandes histórias não acabam quando esquecemos alguém. Acabam quando deixamos de precisar que regressem. E nesse dia percebemos uma coisa quase ofensiva.
A vida continuou.
Sem cerimónia.
Sem respeito pelo nosso desgosto.
Sem esperar que estivéssemos prontos.
E ainda bem.
Porque foi precisamente nesse movimento bruto e indiferente que um dia voltámos a encontrá-la.
Isabel Saldanha


Gosto quando escreves assim, acho lindo a honestidade da intimidade
Texto perfeito para quem sofreu um ghost e ainda não sabe decifrar a perda, o descaso, a falta de responsabilidade afetiva. É muito difícil lidar com o que não aconteceu, com o que só ficou na nossa cabeça, com as nossas expectativas. Escrita linda. Obrigada. ✨💖