Para quieta!
Tende compaixão dos hiper-activos.
Há uns anos estava na Bica com um grupo de amigos, gesticulava e falava ao mesmo tempo, estava tão acelerada e tão dentro da conversa, que devia estar provavelmente ofegante. A certa altura, um rapaz aproxima-se por trás, junta-se discretamente ao grupo e diz-me ao ouvido: “Posso respirar por si?”
Achei a frase tão inesperada e tão apropriada que durante uns segundos tive vontade de começar ali um romance com alguém que se oferecia para me oxigenar. Havia qualquer coisa de biologicamente romântica naquilo. Uma espécie de fotossíntese social improvisada no meio da calçada. Ele propunha-se a transformar o meu excesso de combustão em respiração assistida. Uma clorofila emocional de emergência.
Sempre me fascinou esta ideia de haver pessoas que vivem numa velocidade diferente das outras. Talvez porque eu própria sempre tenha vivido assim. Há pessoas que ainda dizem que eu ando como se estivesse a fugir da polícia. Nunca percebi bem a observação. Porque andar rápido não significa necessariamente fugir. Às vezes é apenas existir numa frequência diferente. Há rios rápidos e há rios lentos. Nenhum deles está errado.
No meu diário dos 12 anos, escrevi uma frase profundamente irritada depois de ouvir mais uma vez alguém pedir-me que abrandasse: “Um dia vou casar com o homem que me diga: Isabel, anda mais rápido.”
Nunca aconteceu, claro.
A maior parte das pessoas quer acalmar a energia umas das outras. Não compreendo mas é curioso.
Crescemos a ouvir “está quieta”, “senta-te direito”, “fala mais baixo”, “abranda”, “concentra-te”, como se a calma fosse sempre um sinal de virtude e a intensidade uma espécie de falha moral. E claro que eu percebo o valor da contemplação. Percebo o silêncio. Percebo a beleza de uma pessoa que consegue parar diante do mar. Há uma profundidade rara em quem sabe pousar o corpo no tempo. A leitura e a escrita oferecem-me isso.
Mas também começo a perguntar-me porque é que transformámos a calma numa doutrina e a inquietude numa suspeita clínica.
Porque o universo inteiro é movimento. Não existe um único ponto imóvel na existência. A Terra gira sobre si própria a mais de 1600 km/h. Anda à volta do Sol. O sistema solar desloca-se pela galáxia. Os átomos vibram. O coração mexe-se para sobreviver. Até aquilo que parece sólido é, à escala quântica, uma dança absurda de partículas e probabilidades. A física moderna destruiu completamente a ideia de imobilidade absoluta. O cosmos pulsa. Aconselho que vejam a série Cosmos 1.
E depois nasce uma criança hiperactiva e a primeira coisa que fazemos é tentar reduzir-lhe a oscilação.
Mais uma vez: não estou a romantizar sofrimento real. PHDA existe. Ambas as minhas filhas foram diagnosticadas. Sei que há crianças e adultos em sofrimento verdadeiro, incapazes de organizar pensamento, foco, sono, vida prática. Há um desgaste brutal em alguns casos. Mas também é verdade que os diagnósticos aumentaram de forma exponencial nas últimas décadas, sobretudo em contextos escolares e urbanos altamente padronizados. E às vezes pergunto-me onde termina a perturbação e começa a incompatibilidade entre certos cérebros e determinadas arquitecturas sociais.
Porque uma escola exige oito horas de imobilidade relativa. Um escritório exige repetição. Um algoritmo exige retenção de atenção linear. E muitos cérebros não funcionam linearmente. Funcionam por associação, intensidade, curiosidade dispersa, absorção múltipla. Como fogos de artifício cognitivos.
Nietzsche desconfiava profundamente das sociedades que tentavam domesticar os impulsos vitais em nome da ordem. Bergson falava do élan vital, esta força criadora incessante da vida. Heráclito dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio porque tudo flui. O taoismo nunca separou harmonia de movimento. Até Deleuze via o desejo não como falta, mas como fluxo produtivo, matéria viva em deslocação contínua. E vale a pena ler Deleuze - Ele criticava muito a tendência das sociedades para normalizar comportamentos, organizar tudo em categorias rígidas e transformar diferenças em desvios. O problema é que Deleuze2 escreve de forma extremamente densa. Há momentos em que parece um homem genial e outros em que parece alguém que inalou demasiada filosofia sem ventilação suficiente. Mas a intuição central dele é muito poderosa: a vida não é feita para caber totalmente em formas fixas.
O fluxo da vida é movimento e no entanto nós insistimos em interpretar determinados excessos de energia quase exclusivamente como falha funcional.
Talvez porque a energia assusta.
Uma pessoa muito inquieta desorganiza o ambiente. Obriga-nos a confrontar ritmos diferentes. Faz perguntas a mais. Interrompe coreografias sociais. E sobretudo lembra-nos uma coisa desconfortável: que muitos adultos aparentemente calmos não estão em paz. Estão apenas cansados. Domesticados. Sedados pela repetição.
Às vezes penso se não saltámos de um extremo para o outro. Do elogio absoluto da produtividade e do rendimento para uma romantização excessiva da contemplação, quase como novo estatuto espiritual. Como se o ideal humano agora fosse um híbrido entre monge zen, terapeuta somático e chá de camomila.
Mas e se o verdadeiro progresso não estiver em converter toda a gente à calma?
E se estiver simplesmente em aceitarmos diferenças de frequência?
Porque há pessoas que pensam a caminhar depressa. Pessoas que precisam de movimento para organizar ideias. Pessoas cuja lucidez nasce da combustão e não da quietude. E talvez isso não seja inferior. Talvez seja apenas diferente.
O problema começa quando confundimos serenidade com superioridade moral.
Há pessoas silenciosas profundamente violentas. E pessoas agitadas profundamente conscientes. Há quem contemple um pôr-do-sol sem nunca olhar verdadeiramente para ninguém. E há quem viva numa corrente eléctrica permanente mas tenha uma capacidade brutal de presença, curiosidade e espanto.
Talvez o ponto nunca tenha sido escolher entre calma e inquietude. Talvez seja perceber o que fazemos à energia humana quando ela não corresponde ao formato dominante da época.
Porque andamos sempre a tentar corrigir qualquer coisa uns nos outros.
Uns querem medicar o excesso. Outros querem espiritualizar a lentidão. Uns veneram produtividade. Outros veneram contemplação. E no meio disto talvez falte apenas uma coisa absurdamente simples: respeito pela diferença de ritmo humano.
Talvez haja pessoas feitas para andar devagar ao fim da tarde. E outras feitas para subir a Bica quase sem respirar, ofegantes, e sem saber, que algures numa esquina, está alguém que se ofereçe para respirar por elas.
Com alguma apneia,
Isabel Saldanha
Uma Odisseia do Espaço-Tempo (e sua continuação, Cosmos: Mundos Possíveis) é uma reinicialização da lendária série de Carl Sagan exibida em 1980. Uma jornada épica através do espaço e do tempo, que explora a história da humanidade e a nossa busca heroica pelo conhecimento. Vi 6 episódios de seguida.
Se queres entrar em Gilles Deleuze sem te sentires imediatamente atropelada por um comboio filosófico em alta velocidade, não começaria pelos livros mais famosos dele. Muita gente pega em Mil Platôs ou O Anti-Édipo e sai de lá a precisar de assistência respiratória. Conversações - Provavelmente o melhor começo.
São entrevistas, reflexões curtas e textos mais acessíveis. Continuas a apanhar as ideias dele sobre movimento, desejo, controlo social, criação, mas numa linguagem muito mais respirável. Há ali frases brilhantes sobre o que significa pensar, criar e não viver domesticada.



