Passam-se MESES
Desde os 17 que vive fora. Vejo-a no Natal, na Páscoa e no verão. O resto do ano cabe num rectângulo de luz.
Quando me separei e elas eram pequenas nunca fui de ligar todos os dias.
Achava que criar rotinas à distância era fabricar uma dependência que depois podia falhar. Sempre tive esta disciplina quase rígida em relação à autonomia.
A vida ri-se destas teorias.
A Caetana foi para a Holanda estudar quando tinha 17 anos.
Tem agora 20. Só a vejo no Natal, na Páscoa e no verão.
Passam-se meses sem que esteja fisicamente no mesmo espaço que eu.
Meses.
Sem cheiro, sem porta a bater, sem passos no corredor.
Há dias em que o melhor momento é quando o telefone toca e a cara dela aparece no ecrã. Pixelizada. Viva. Minha.
No outro dia ligou-me.
Não havia novidade. Não havia crise.
Queríamos só estar.
Eu a trabalhar.
Ela a ler.
Pusemos os telemóveis pousados ao lado do computador e ficámos assim durante imenso tempo. Cada uma na sua tarefa. Em silêncio.
Uma mesa partilhada através de um ecrã.
A tecnologia engana-nos, é verdade.
Liga e desliga. Reduz tudo a sinal e bateria.
Mas naquele momento fez o contrário daquilo que lhe aponto tantas vezes.
Não criou uma ilusão.
Criou presença.
Não substitui o abraço.
Não substitui o corpo.
Não substitui a matéria.
Mas impediu que a distância se tornasse ausência.
E talvez o que me surpreenda não seja a tecnologia.
É perceber que, depois de ter defendido tanto a independência emocional,
ainda me comove esta coisa simples de querer tanto estar lado a lado.
Mesmo que seja através de vidro e luz.
Isabel Saldanha
P.S: Hoje era só a saudade a querer falar.


