Voltar à Croácia
Memórias, ferries, vinho, maternidade e o Caderno de Viagem que nasceu desta semana em Korčula.
A primeira vez que fui à Croácia foi em 2021. Atravessei o país de carro, de Zagreb até Dubrovnik, com muitas paragens pelo caminho e a mania habitual de querer perceber tudo: as cidades, as estradas, a história, a comida, a arquitetura e as diferenças entre o interior e a costa.
Fiquei com a sensação de ter visto muito e, ao mesmo tempo, de ter deixado o essencial para outra viagem. A Croácia tem esse problema.
No mapa parece um país relativamente simples. Depois chegamos lá e percebemos que há uma costa enorme, centenas de ilhas, ferries, estradas que demoram mais do que imaginávamos e demasiados lugares onde apetece parar.
Desta vez não quis atravessar o país inteiro. Não quis contar cidades, mudar de hotel todos os dias nem regressar a casa a precisar de férias das férias. Queria escolher uma ilha, ficar quieta e dar tempo aos dias.
Escolhi Korčula.
Mas a verdade é que a Croácia foi apenas o lugar onde esta viagem aconteceu. O motivo eram as minhas filhas.
Há três anos a Caetana foi estudar para Amesterdão. Mais ou menos na mesma altura, a Camila foi viver com o pai. Sem grande cerimónia, passei de uma maternidade a tempo inteiro para uma espécie de pré-reforma forçada.
As mães criam os filhos para que eles partam. Sabemos isso desde o início. Só ninguém explica muito bem o que fazemos com o corpo quando eles partem mesmo.
Aprendi a gostar da minha casa silenciosa, dos meus horários, da liberdade de jantar o que me apetecesse, de viajar sem consultar calendários escolares e de não encontrar toalhas molhadas em cima da cama. Adaptei-me bastante bem, até. O problema é que uma pessoa pode adaptar-se a uma vida e continuar a ter saudades da anterior.
Tinha saudades de voltar a ser mãe das duas ao mesmo tempo.
Não mãe por telefone. Não mãe através de mensagens, localizações partilhadas, voos marcados e chamadas feitas à pressa entre duas vidas. Mãe de acordar com elas, saber se comeram, ouvir as conversas sem princípio nem fim, esperar enquanto se vestem e voltar a perguntar, pela décima vez, se alguém viu o carregador.
Durante uma semana voltámos a viver as três debaixo do mesmo teto.
Também voltou a roupa espalhada, a eterna discussão sobre onde almoçar, as diferenças de feitio, as pequenas impaciências e aquela capacidade extraordinária que os filhos têm de nos devolver à pessoa que éramos antes de aprendermos a viver sem eles por perto.
Eu tinha romantizado ligeiramente a coisa.
Ao segundo ou terceiro dia já estava cansada.
Ser mãe a tempo inteiro também se desaprende. Elas cresceram, têm opiniões sobre tudo, ritmos diferentes e uma autonomia que naturalmente não desaparece só porque estamos de férias juntas. Já não são duas miúdas que seguem a mãe. São duas mulheres novas a viajar comigo, cada uma com a sua personalidade e a sua maneira de ocupar o mundo.
Houve momentos de fusão absoluta e outros em que todas precisámos de espaço. Gargalhámos muito, irritámo-nos algumas vezes e voltámos a perceber como é estranho amar tanto pessoas tão diferentes de nós.
Foi exatamente a viagem de que eu precisava.
A Croácia ajudou porque permite essa lentidão. O Adriático tem uma transparência quase indecente, as estradas da costa são bonitas, as cidades antigas continuam habitadas e a vida nas ilhas ainda obriga a aceitar que nem tudo acontece à nossa hora.
Korčula é uma ilha suficientemente grande para não nos sentirmos presos e suficientemente pequena para não passarmos os dias dentro do carro. Tem praias de pedra e água cristalina, aldeias, vinhas, restaurantes familiares, estradas estreitas e uma cidade antiga onde é impossível não andar devagar.
É também a terra do Grk, um vinho branco produzido sobretudo na zona de Lumbarda, a partir de uma casta que quase só existe ali. Só por isso já valia a viagem. E não digo isto apenas porque tenho a tendência de achar que todas as viagens melhoram quando existe uma casta local envolvida.
A Croácia é um país muito fácil de amar e um pouco menos fácil de organizar.
Não é complicado, mas há coisas que convém estudar antes. Os voos fazem uma diferença enorme no orçamento. No verão, os carros devem ser alugados com antecedência. E os ferries não são um detalhe: fazem parte do percurso e podem obrigar a construir a viagem inteira à volta de um horário.
Também é importante perceber que tentar conhecer muitas ilhas numa semana pode parecer uma excelente ideia no Excel e tornar-se uma estupidez quando chegamos. Cada mudança implica malas, carros, filas, barcos e várias horas perdidas. Eu prefiro escolher menos e ficar mais.
Foi essa a maior diferença entre a viagem de 2021 e esta. Na primeira quis atravessar a Croácia. Desta vez quis habitá-la durante alguns dias.
Regressei com a certeza de que é um país para onde vale a pena ir, sobretudo para quem gosta de mar, estrada, comida simples, vinho e lugares que ainda não foram completamente transformados em cenário.
Mas regressei sobretudo com aquela ressaca estranha de quem teve, durante uma semana, uma versão antiga da própria vida de volta.
Voltei a ser mãe a tempo inteiro. Voltei a ouvir portas a bater, perguntas feitas de outra divisão, gargalhadas quando já devíamos estar a dormir e discussões sobre coisas absolutamente inúteis.
Foi cansativo.
Foi maravilhoso.
E acabou depressa demais.
É por isso que este Caderno de Viagem não é apenas um roteiro sobre Korčula. É o resultado de duas viagens à Croácia, feitas em momentos muito diferentes da minha vida, e de tudo aquilo que aprendi pelo caminho.
Organizei os percursos, as praias, os restaurantes, os vinhos, os ferries, os alojamentos, os custos e os contactos. Incluí aquilo que faria de novo, os erros que não repetiria e as escolhas que me pouparam tempo e dinheiro.
Porque a Croácia merece ser vivida sem pressa.
E porque, já que não podemos impedir os filhos de crescer, ao menos podemos continuar a marcar viagens com eles.


